O cara da vez...

Conhece o cara? O CARA? Então, vai conhecer. Seja em cinema, música, livros ou qualquer coisa que passe pela minha cabeça.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Crônicas de um dia particular #1

DALÍ OU DE LÁ




Agora eu to sentado. E assim vou continuar por mais...4h26. Agora 4h25, menos mal. Eu não tenho TOC (pelo menos não que eu saiba), mas olhar no relógio se tornou uma das atividades mais divertidas quando estou aqui. E o melhor de tudo é que, para saber quanto tempo falta, não preciso nem fazer conta. Assim que passo por esta porta que julgo fazer o maior nhéééééc da cidade, ligo o timer. 9h06. Até eu dar oi para todo mundo, ligar o computador, tomar meu café e arrumar as coisas, já faltam apenas 8h59. Sete minutos gastos com talento. Talento e um pouco de astúcia. Às vezes até demais, se pensar na época em que eu folheava o jornal de cada dia (e de vez em quando, também o do dia anteiror, só para enrolar mais). Acontece que um dia fui pego em flagrante. O sol batendo do lado de fora e eu me acabando na página de esportes. Segunda-feira. Estava analisando atentamente os resultados da última rodada do campeonato grego de baseball quando uma sombra tapou meia página. Aquele vulto de cabelos bagunçados só poderia ser de uma pessoas. A chefe.

Que palavra repugnante essa, principalmente dentro deste ambiente. Aliás, aqui, qualquer palavra é repugnante. Aqui, o silêncio impera. Música, só quando passa aquele carregador de papelão que tem uma carroça tunada. E, de vez em quando, o guardador de motos que sabe assoviar todos os temas de novela (incluindo as do SBT, segundo Diene, que senta ao meu lado). Aqui somos em três, mas podemos considerar quatro. Eu, Diene, a Chefe e o Medo. O Medo é onipresente neste hospício. Hospício foi o último adjetivo que inventaram. Veio de um cara que trabalha na Bolsa de Valores, no centro. Acho que seu trabalho deve ser tranquilo ou ele ficou impressionado com a Chefe gritando com a Diene por causa do cheiro forte do café da manhã que a coitada comia em sua mesa por não ter tempo de ir até a padaria. Porque aqui é assim. Se não é o silêncio, são gritos.

Agora só faltam 3h25. Se bem que hoje é sexta. Pode ser que eu tenha que reiniciar meu timer depois de seu fim. Contrariando a ordem do tempo de maneira imbatível, a Chefe optou por tirar as pilhas de seu relógio. Nem o belíssimo relógio de parede onde estava escrito “melhor chefe do mundo”, que eu e Diene compramos com todo o amor, resistiu. Uma vez, para puxar papo, perguntei qual tipo de música que ela gostava. “gosto de silêncio”. Com um pouco de igenuidade e muito de “também, foda-se”, perguntei: “ahhhh, mas silêncio tipo música silenciosa?”. “Não eu gosto de silêncio mesmo e você tá me atrapalhando a ouvir essa música que eu tanto gosto”.

Agora, faltando 2h57 para acabar meu expediente, me pergunto pela 398ª vez (na semana) o porquê de eu ainda estar aqui. Minha carteira na frente me responde. Certa vez, me prometi que nunca me venderia pro “capitalismo do mal” e trabalharia no que eu gostasse de verdade. Apesar de ter quinze anos nessa época, tinha certeza que iria cumprir a minha promessa. Desde meu primeiro emprego, como estagiário em um banco, passando pelo segundo, como assistente em uma multinacional do setor petrolífero, senti que tinha jogado tudo por água abaixo.

Faltando 2h19 para acabar meu expediente, afirmo que sim, joguei minha ideologia abaixo, mas não joguei minha acidez contra aquilo que não concordo. Talvez por isso, eu acabei criando algumas confusões quando, nas reuniões da multinacional do petróleo, quando perguntavam minha opinião, eu dizia que a coisa estava preta. E só. Sinceramente, pouco me importa se o barril estava X ou 2X.

Quando só faltam 1h36, como agora, meu relógio apita. A Diene vira e me dá um sorriso. Eu devolvo uma cara de “bom, mas ainda faltam 1h36”. 1h36 não é um horário escolhido ao acaso. Quer dizer que falta 1h30 para acabar meu horário, mais os acréscimos, ou seja, aqueles minutinhos que tenho que enrolar para a chefe não achar que eu estou desesperadamente desesperado para fazer o nhéééééc de tchau.

Como agora faltam 1h09 para partir, ainda dá tempo de contar alguma coisa da Diene. Essa aí, coitada, tá mais perdida que a chefia em filme do Woody Allen (ela diz gostar daqueles filmes “água com açúcar” e quando eu disse que havia desconfiado que ela gostava de Bergman, acabou não sacando a piada). Diene tem 23 anos e é formada em Artes do Corpo. O que não posso dizer que ela não pratica aqui. Tem que ter jinga para fechar todas as janelas do messenger quando a chefe passa. Uma artista nata. Eu não consegui e meu messenger foi banido. Assim como o site do meu e-mail. Assim como o site do e-mail que eu criei depois que o meu primeiro e-mail havia sido banido. Assim como o site do e-mail que eu criei depois que os meus dois primeiros e-mails haviam sido banidos. Sabe o que dizem dos brasileiros. Eu sou. Mas o problema é que ela também. Mas, voltando à Diene. Coitada. Chega aqui depois de viajar por meia São Paulo e enfrentar mó “trânsto”. É, ela fala assim: “trânsito”, sem o i. Já tentei defender a idéia da Língua de Eulália em um dia de fúria da Chefe, mas ela mandou a Eulália pra longe. Só não manda a Diene pro mesmo lugar, pois ela é filha de uma grande amiga sua (o que eu dúvido. Deve ser uma grande dívida, isso sim.)

O auge do dia está perto. Faltam 41 minutos. O timer, 8h19 depois, quer desesparadamente acabar. No fundo, no fundo, ele sabe que por dois dias vai girar tranquilo. Seus ponteiros vão circular com toda parcimônia que dois dias de descanso exigem.

Faltando 37 minutos, admito que tudo o que escrevi no parágrafo acima é mentira. O relógio, maldito, gira mais devagar do que nunca durante este minutos finais e insiste em correr durante meus dois dias de descanso. Talvez, a chefe tenha amaldiçoado todos os relógios do mundo e obrigado eles a andar no tempo que ela desejasse. Teoria da Diene.

Quando só faltam 12 minutos, como agora, minhas mãos começam a suar. Medo de alguma aitividade nova pra fazer. Tento me demonstrar extremamente ocupado. Digito letras a esmo no teclado apenas para fazer barulho, mas tomando cuidado para não digitar muito o “enter” para a chefia não achar que estou conversando com alguém através de um nono método de conversação da “uébi” (como ela gosta de chamar), que provavelmente seria extinto do meu computador em poucos dias.

Faltam 7 minutos, ou seja, apenas um minuto para o término do tempo regular. Hoje, o primeiro tempo foi tenso. O intervalo curto. E o segundo tempo está sendo terrível. O adversário está na ofensiva e eu jogo fechado na defesa, me segurando até último giro do ponteiro. Haja coração.

Mas agora não dá mais pra tirar o gosto de título. Só faltam 2 minutos. É bom demais pra ser verdade. Quer dizer, bom demais está longe de ser, mas pelo menos não vou ficar preso até a hora do zelador do prédio expulsar todo mundo porque as portas vão se fechar. Isso acontece tarde.

1 minuto. TCHAUUUUUUU. Gritei. No pensamento. Chequei se alguém em outro fuso horário havia mandado alguma mensagem (pois só alguém nessa condições para mandar algo às 18h06 de uma sexta). Nada. Iniciar. Desligar. Se tivesse uma opção “desligar e explodir” eu apertaria. Maldito Bill Gates.

- Bom, Diene, é isso, até seg...
- Luííííííis, você já tá indo?
- Errrrr...não, é que....
- Ufa, que bom que você conseguiu acabar suas coisas a tempo de me ajudar! Ainda bem que o prédio só fecha às 21h00 porque a gente tem um monte de coisa pra fazer...

Maldito timer.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

CLAP!

Maldita Diene...

10 de maio de 2008 às 08:07  

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